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COLUNA DO TÉO

Estratégia ou Plano?: uma questão central para as pequenas e médias empresas

Leia a coluna do Professor do Programa de Pós-Graduação em Administração PUC Minas, Téo Armindo dos Santos de Sousa Teodósio, sobre um importante tema:

Publicado em 06/07/2022 às 07:30
Atualizado em

Téo Armindo dos Santos de Sousa Teodósio | Professor do Programa de Pós-Graduação em Administração PUC Minas (Foto: Arquivo pessoal)

Infelizmente, no debate público contemporâneo, não apenas no Brasil, mas mundialmente, pouca atenção é dada ao essencial, ao que faz diferença para o desenvolvimento local. E muita atenção, poder político e recursos financeiros, ou seja, investimento com dinheiro público com é feito naquilo que nem sempre traz os resultados esperados. Esse é o cenário quando falamos de empresas e seu papel para o desenvolvimento local ou dos municípios onde atuam.

O grande vetor de desenvolvimento local, geração de postos de trabalho e democratização do acesso ao trabalho, à renda e ao dinheiro são as pequenas e médias empresas. Mas são justamente elas que gozam de menor prestígio no seio da sociedade e sobretudo frente ao poder político, sempre ávido por agradar com subvenções e outras benesses mais as grandes empresas, e sempre mau humorado e ausente quando é convocado a pensar um choque de desenvolvimento a partir do empreendedorismo das pequenas e médias empresas, que resulta no principal motor de criação de empregos em nosso país.

Em Brumadinho, esse contexto não é diferente. Vivemos numa sociedade e numa economia na qual os poderosos de plantão, seja no poder público, seja no comando das grandes empresas, adoram retratar como dependente da mineração. Mas, na verdade, vocações importantes de nossa terra, de nosso futuro, porque minério acaba um dia, estão nas mãos justamente dos pequenos e médio empreendedores das “Brumas Gerais”.

 Nesse contexto, infelizmente, a gestão das pequenas e médias empresas ora é feita como espelho das grandes corporações, tentando empurrar goela abaixo de microempresários soluções gerenciais pouco adaptadas à realidade das pequenas empresas, ora é feita na base da tradição, do achismo, do jeitinho e do que se aprendeu com aqueles que fundaram essas empresas. Entre os dois extremos, residem as virtudes das estratégias empresariais. Não é por menos que Aristóteles, um dos filósofos essenciais da antiguidade, dizia que a virtude não reside nos extremos, ao tratar da sua famosa Ética das Medianas.

 Gestão é uma arte complexa, que não depende apenas de boa formação e domínio de ferramentas administrativas, depende de curiosidade, capacidade de atualização, inovação e abertura a mudanças, enfim, depende de um bom grau de cultura geral temperada com pragmatismo. Mas, nessa era de muitas tecnologias, aplicativos, cursos e consultorias que prometem soluções mágicas e respostas rápidas e fáceis para os negócios, o que menos se encontra é justamente capacidade de análise global da realidade, pragmatismo e bom senso.

 Isso acontece justamente entre duas grandes possibilidades de gestão das empresas, inclusive e sobretudo nas pequenas e médias empresas. Quando pensamos em planejamento e em estratégia, podemos ter quatro combinações entre essas palavras e entre dimensões de gestão: 1 – Nenhum plano e nenhuma estratégia; 2 – Muito planejamento para nenhuma estratégia; 3 – Nenhum planejamento para muita estratégia; 4 – Muito planejamento para muita estratégia.

Na primeira situação, de gerenciar sem estratégias e planos, encontram-se muitas pequenas empresas de Brumadinho. Vários negócios se desenvolvem ao sabor e os ventos da cabeça dos empreendedores. Enquanto aquele que fundou a empresa está à sua frente, com seu chamado “tino de negócio”, ou seja, apelando para seus instintos e trabalhando com tentativas e erros para descobrir o que dá certo e como dá certo no seu empreendimento, tudo vai bem. Mas, quando esse empreendedor envelhece, se aposenta ou morre e a transição para os herdeiros vai acontecer, esse negócio que antes prosperava corre sérios riscos de desaparecer e, muitas vezes, efetivamente desaparece ou é vendido para terceiros.

 Na segunda dimensão, estão aqueles empreendimentos cujos gestores não gostam de risco e acham que boa gestão é controlar tudo e todos o tempo todo, principalmente os empregados de sua pequena empresa. Adoram ter planos que quase imobilizam as operações da empresa e tolhem a criatividade. E se esquecem de que muitos planos sem estratégias, sem uma visão de o que se quer ser, como se quer ser e como se deseja evoluir como empresa, pode ser um tiro no pé, visto que a empresa pode permanecer estagnada ao longo dos anos ou mesmo ser substituída por outras empresas com mais clareza de onde desejam chegar e como desejam ser. Podem ser ultrapassadas por empresas mais abertas à inovação e à criatividade, sem adotar um planejamento tão estruturado que, ao invés de fortalecer a empresa, mata o empreendimento por sufocamento de suas virtudes e outras qualidades que poderiam surgir futuramente, sobretudo a capacidade dos empregados em contribuir para o aperfeiçoamento da gestão da pequena empresa.

 Outros empreendedores de Brumadinho, ainda que me pareça serem poucos, são arrojados, gostam de correr riscos e se baseiam nas histórias de gestores que transformaram o mundo dos negócios, tornando-se milionários em algumas décadas. Steve Jobs, Bill Gates e, agora, Elon Musk estão entre aqueles que os inspiram. São capazes de antever futuros ou mesmo tentar transformar realidades econômicas, políticas, sociais, culturais e até mesmo ambientais para que suas visões de futuro se concretizem. Têm muito a dizer sobre estratégia, mas nem sempre se notabilizam pelo planejamento. Todos esses gestores famosos que aparecem na mídia o tempo todo não tem apenas capacidades gerenciais, têm muito capital político e cultural. Além disso, esses grandes empreendedores fatalmente, em algum momento da sua história empresarial, são ultrapassados por outros, visto que acabam se deixando levar por vaidades e futilidades, perdendo a capacidade de compreender o que ainda têm virtudes e o que não tem mais virtudes gerenciais. Isso, na realidade de uma pequena empresa, que precisa honrar seus compromissos mês a mês e cujos gestores não contam com esse capital social, ou seja, o prestígio dessas famosos gestores, pode ser fatal e levar o empreendimento que iria mudar o mundo a fracassar em um futuro breve.

 Para muitos, o mundo ideal é ter estratégia e plano bem estruturados e claros. Aqui estão aqueles que estudaram Administração, seja nos cursos técnicos ou na universidade, e aprenderam sempre a pensar no Planejamento Estratégico. Sim, esse seria o ambiente empresarial ideal. Porém, na realidade concreta de uma pequena e média empresa, esse mundo idealizado é absolutamente irreal. E, deixar de ter os pés no chão, deixar de ser pragmático é um vício ou uma virtude, como preferirem, que administradores não podem deixar de ter. Na verdade, em poucos momentos da história das empresas o equilíbrio entre Planejamento e Estratégia é alcançado, sendo que o Planejamento pode acabar sufocando a Estratégia. Por isso, Henry Mintzberg, um dos mais brilhantes pesquisadores da área de Administração que conheço diz que “entre um bom plano e uma boa estratégia, fique sempre com uma boa estratégia”.

 Se você que me acompanhou até aqui está confuso, perdido com tantas possibilidades e indeciso sobre o que fazer com sua pequena ou média empresa em Brumadinho, respire fundo, acalme-se e deixe os extremos de lado. As combinações entre planejamento e estratégia vão variar de contexto para contexto, de realidade empresarial para realidade empresarial e não vai adiantar ler muito e fundir pouco a cabeça, tentando copiar de forma acrítica as soluções de outras empresas. Não vai adiantar contratar uma consultoria para resolver todos os seus problemas empresariais, sem que você questione e dialogue com essa equipe de consultores e se envolva com essa mudança em sua empresa. Não vai adiantar querer controlar tudo o tempo todo e nunca errar, como também não vai adiantar querer inovar sempre e operar em um ambiente empresarial de muito descontrole.

A nobre tarefa de gerenciar, que para muitos não é uma ciência, nem uma técnica apenas, é um arte, exige conhecimento, reflexão sistemática, adaptação, intuição, idealização (o imaginação) e prática constantes. E, na verdade, mesmo não aparecendo na mídia o tempo todo, não recebendo o devido tratamento cheio de prosopopeias e agrados (isenção de impostos, terrenos para operar, construção de infraestrutura, reuniões cheias de pompa e circunstância, etc., etc.) que as grandes empresas recebem para abrir suas filiais em Brumadinho, você empreendedor que está a frente das pequenas e médias empresas que operam em nosso município merece igual tratamento, atenção, respeito e incentivo para construirmos um local onde a riqueza econômica seja compartilhada, onde o avanço dos negócios resulte em avanços na geração de trabalho, renda e produtos e serviços efetivamente úteis para vivermos numa sociedade que precisa ser sustentável, precisa ser mais inclusiva, mais equitativa e democrática. E democracia também começa por tratar de forma igualitária todas as empresas, e não apenas as grandes corporações que prometem mundos e fundos aos municípios que as recebem e que via de regra frustram essas expectativas. Democracia política combina com democracia econômica feita centenas de pequenas e médias empresas gerando bons postos de trabalho, renda e produtos e serviços. Precisamos sonhar e lutar urgentemente para que Brumadinho se torne um lugar onde mais e mais pequenas e médias empresas floresçam com responsabilidade social e ambiental.

Téo Armindo dos Santos de Sousa Teodósio

Professor do Programa de Pós-Graduação em Administração PUC Minas


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