Portal da Cidade Brumadinho

CASO POLÊMICO

AECOM diverge de alerta do NACAB sobre risco de novo colapso em Brumadinho

Auditoria técnica afirma que dados citados pelo núcleo de assessoria não indicam ruptura em andamento

Publicado em 22/09/2026 às 14:45

Caso envolve anfiteatro da antiga barragem B-I (Foto: Vale)

Um novo debate técnico envolvendo as condições do Remanescente B-I, em Brumadinho, colocou o Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens (NACAB) e a auditoria técnica independente AECOM em posições divergentes.

O NACAB publicou, em setembro, um alerta sobre a possibilidade de um novo desastre envolvendo rejeitos de mineração na região. Segundo o núcleo, estruturas operadas pela Vale não teriam capacidade suficiente para conter a lama caso ocorresse um colapso no anfiteatro da antiga barragem B-I.

A AECOM contestou essa interpretação. Em parecer elaborado a pedido dos compromitentes do Acordo Judicial de Reparação Integral (AJRI) — Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Ministério Público Federal (MPF) e Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais (DPEMG) —, a empresa avaliou a compatibilidade das afirmações do NACAB com os relatórios de auditoria nº 89, 90 e 91/2026 e com a Nota Técnica nº 68/2026.

O que motivou o alerta do NACAB

Entre os argumentos apresentados pelo NACAB está a existência de aproximadamente 49.572,04 m³ de rejeitos remanescentes no anfiteatro do Remanescente B-I, sete anos depois do rompimento ocorrido em 25 de janeiro de 2019.

O núcleo também mencionou registros da AECOM sobre uma possível suscetibilidade dos rejeitos à liquefação, fenômeno no qual o material pode adquirir comportamento líquido e elevar o risco de colapso. O NACAB ainda destacou ressalvas da auditoria relacionadas à possibilidade de rupturas durante a execução de obras.

A assessoria apontou outros cinco aspectos:

• Estruturas de contenção: segundo o NACAB, a Barreira Hidráulica Filtrante 2 (BH-2), juntamente com as malhas dinâmicas, não teria capacidade técnica para segurar a lama em uma eventual ruptura. O núcleo afirmou que a BH-2 chegou a acumular 9 mil m³, enquanto sua capacidade seria de 5 mil m³, no começo do período seco de 2026. Mesmo depois de uma limpeza emergencial em junho, o volume continuaria insuficiente.

• Cronograma das intervenções: o NACAB afirmou que as principais obras destinadas à retirada dos rejeitos foram transferidas para 2027 em razão da demora da Vale para conseguir o licenciamento ambiental.

• Sistema de monitoramento: aproximadamente 60% do monitoramento superficial do anfiteatro teria ficado sem leitura durante o primeiro semestre de 2026 porque os equipamentos foram encobertos por vegetação.

• Ações emergenciais: o núcleo afirmou que, durante o período seco de 2026, não foram adotadas medidas adicionais emergenciais de segurança recomendadas pela auditoria na área localizada a jusante da BH-2.

• Paraopeba: o NACAB também relatou que a Cortina de Estacas-Prancha 1 (CEP-1) apresentou vazamento de rejeitos sólidos no rio Paraopeba em razão da redução da vazão de bombeamento na ETAF-1.

A posição apresentada pela AECOM

A auditoria considerou que a publicação do NACAB atribui aos dados uma interpretação própria e os apresenta fora do contexto técnico dos documentos.

De acordo com a AECOM, nos períodos analisados pelos relatórios nº 89, 90 e 91 não foram observadas mudanças no comportamento do Remanescente B-I, movimentação generalizada ou qualquer processo de ruptura em andamento.

A presença de rejeitos no anfiteatro, segundo a empresa, é uma condição residual já conhecida e não significa que exista atualmente um colapso em desenvolvimento.

Sobre os pontos apresentados pelo NACAB, a AECOM esclareceu que:

• Os 49.572,04 m³: o volume citado não representa a quantidade total de rejeitos existentes no anfiteatro. O número corresponde à soma dos volumes úteis projetados para as Malhas Dinâmicas 02 e 03 e para a BH-2 em um estudo específico.

• Contenção: os estudos de propagação de rejeitos levam em consideração elementos como a topografia, o espalhamento e a deposição progressiva ao longo do vale. As Malhas e a BH-2 funcionam como mecanismos adicionais de mitigação e, por isso, não devem ser comparadas diretamente ao volume total que poderia ser mobilizado na origem.

• Liquefação: para a AECOM, a possibilidade de liquefação constitui uma condicionante técnica para projetos de futuras escavações, e não uma indicação de que esse mecanismo esteja ocorrendo. As ressalvas relacionadas à instabilidade dizem respeito ao controle necessário durante futuras obras de escavação, e não à situação atual.

• Monitoramento: a ausência de leituras mencionada pelo NACAB estava relacionada aos prismas da Estação Total Robótica, afetados pela vegetação. A AECOM afirmou que isso não representou uma interrupção completa do monitoramento, que também utiliza radares, piezometria e microssísmica.

• BH-2: a recomendação de adoção de medidas a jusante da BH-2 tinha caráter preventivo e hipotético. Segundo a auditoria, a questão foi superada após o desassoreamento da estrutura realizado em agosto.

• Rio Paraopeba: o episódio de vertimento pontual registrado na CEP-1 não foi utilizado nos relatórios da auditoria para sustentar um diagnóstico de contaminação contínua do rio Paraopeba.

• Áreas das comunidades: as Zonas Vermelha e Laranja consideradas nos cenários hipotéticos permanecem dentro da área operacional da Vale e, segundo a AECOM, não atingem as comunidades situadas a jusante.

Auditoria mantém recomendações

Embora tenha contestado a interpretação de que existe um novo colapso iminente, a AECOM afirmou que as questões registradas anteriormente em seus relatórios continuam sendo acompanhadas.

Entre os pontos que permanecem sob atenção estão o avanço da solução definitiva para a remoção dos rejeitos, a recomposição dos volumes úteis das Malhas 02 e 03 antes do próximo período chuvoso, a manutenção preventiva dos sistemas de monitoramento e a observância dos critérios técnicos nos projetos de engenharia.

Fonte: Portal da Cidade Brumadinho

Envie sua notícia

Participe do grupo do Portal da Cidade no WhatsApp